keep walking, journalism.

porque para algum lugar temos de ir.

rota#6 – Bs. As.

nota de viagem.

Buenos Aires, 11/01/09.
A cidade era argentina, o albergue israelense, o hebraico a língua. Um conflito de comunicação rizível. Na casa havia paz, riso, descompromisso de pernas sacolejantes cadenciadas na brisa fresca.
Sentado no chão, via o vento brincar livremente com as folhas das pequenas árvores limitadas em vasos de uma cerâmica encardida, feito criança faceira a fazer cócegas nas folhas verdes, verdinhas, com todos os seus tons.
O par de pernas balançava para fora de uma das janelas, eu via do pátio. O clima era bom, a paz era boa. Tudo embalado por vozes altas a sorrir em uma língua incompreensível a mim. Do que falavam? Se estavam se divertindo, pareciam. Viagens, passeios, lugares. Talvez. De peito aberto, cheio de vida. Vida inteira vazia. De peito cheio, esvaziador. Toda ela, a dor de uma infinta guerra. De uma ida, de uma volta, e uma terra repartida, de vários povos em revolta. Não. Ali a brisa era mais forte que qualquer tanque de guerra.
Um violão choroso tocava desajeitado e desarmava os soldados de férias. A erva proibída era o bilhete necessário para a grande viagem de uns. A alegria, a bebida, as mulheres, o sexo, a continuidade da possível alienação de outros que desbravavam o mundo, criando seu próprio mundo distante das fronteiras de suas casas seguras, de seu belígero país. Iam atravessando as bordas, ultrapassando os limites, aos confins da terra, conhecendo outras faixas, as de areia, as praias. Talvez Gaza não seja mesmo problema deles, uma guerra alheia. Distante da brisa fresca, das pernas vivas, da erva anestesiante, das conversas desinteressadas, da alegria…
Minha bunda começou a doer. Desconfortável, levantei e saí dali. Não entenderia tão cedo aquela canção desafinada, aquele sentido todo. Por um bom tempo.
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